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Encontros felizes

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.03.08

 

Há uma coragem comovente, feridas difíceis de curar, um encontro mágico e amizades para toda a vida! A linguagem mais nobre, a lição mais poética, e tudo num cavalo… Seabiscuit.

Seabiscuit existiu. Inspirou muita gente simples. E todas as personagens da história. Um cavalo pequeno para as corridas, mas um campeão. Que terá comovido e mobilizado multidões na América. Nele viram tudo isso e muito mais. A sua própria esperança. O seu próprio ânimo e coragem.

Numa época cada vez mais distante dos sentimentos e emoções reais, dos afectos, da lealdade, da constância, do tempo medido de uma vida, Seabiscuit também é mágico por nos recordar tudo isso. E conseguir despertar esses sentimentos em cinema… essa magia já a pensávamos perdida nesses filmes dos anos 30, 40. Outra prova da sorte e de encontros felizes.

 

 

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publicado às 10:36

A família como lugar onde ainda é possível relativizar o drama

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.03.08

 

É cómico-dramático acompanhar esta família numa viagem (metáfora da própria vida) e todos a empurrar a carrinha (metáfora da união do grupo).

Mais cómico-dramático porque vemos as suas mazelas: o tio que sobrevive a uma tentativa de suicídio depois de uma desilusão amorosa e a perda do emprego como professor universitário (além da perda do prémio como especialista de Proust); o avô que se droga no quarto e que morrerá de overdose num motel a meio caminho do concurso Little Miss Sunshine (e ainda por cima deixando a neta sem treinador); o pai que perde um negócio importante, a edição de um livro de auto-ajuda, os Nine Steps, que nem sequer lhe servirá a ele nem a nenhum membro da família; o filho que descobre de forma casual que é daltónico, o que o impede de realizar o seu maior sonho: seguir a carreira de piloto; a mãe que tenta segurar todas as pontas mas que está feita num frangalho.

E no entanto… todos empurram a carrinha! Vem daí a sua força. No meio do desespero, da aflição, estão todos juntos.

Cenas inesquecíveis:

Diálogos tio-sobrinho, o primeiro no quarto e a referência a Nietzsche e ao pacto de silêncio do adolescente; o segundo em frente do mar, breve intervalo da sua vida de losers (desta vez a referência é Proust, e como aliás refere o tio: quem mais loser do que Proust?)

Ao longo da atribulada viagem, as corridas, um a um, ao lado da carrinha, até conseguirem entrar.

Toda a sequência no hospital em que ultrapassam as regras e a necessária papelada: até depois de morto o avô fará parte desta aventura.

Um pequeno grupo de pessoas, tão vulneráveis, que sobrevive às perdas e decepções. A família como lugar onde ainda é possível relativizar o drama. O drama da própria existência.

 

 

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publicado às 15:35

"Aqueles Verões salvaram-me a vida..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.03.08

 

A Good Yearé uma história muito simples. No fundo, é sobre a vida, a amizade, o amor. Os dias felizes.

A personagem dirá a meio: Aqueles Verões salvaram-me a vida. A vida, que o nosso herói vê perfeitamente no dilema que lhe é colocado pelo chefe: É só escolher… o dinheiro… ou a vida.

E tudo se compõe porque a base estava lá. O tio, a casa, a vinha, a amizade, a vida afinal.

O excêntrico tio que um dia na adega perguntara ao sobrinho: “O que é mais importante na comédia?” E a resposta certa: “O timing.”

Em Ridley Scott o timing é fundamental. Assim como a noção de ritmo: rápido ou lento, aos solavancos ou em valsa, sincopado ou deslizante. E tudo no tempo certo.

Numa linguagem tão complexa e diversa, como é a do cinema, pode contar-se uma história de mil e uma formas. E é isso que o torna fascinante.

 

 

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publicado às 12:40

A linguagem do petróleo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.03.08

 

Em Syriana vemos esse mundo-selva dos grandes negócios (neste caso, o petróleo). Essa gente que deixa atrás de si apenas destruição. Primeiro, porque a sua lógica é a da morte e destruição. E depois, porque gente sem esperança, sem saída, sem dignidade (refiro-me aos trabalhadores deslocados, e por isso mais vulneráveis, que vivem em condições de escravatura), adquire a lógica da morte e da destruição.

Negócios a nível mundial, tirados a ferros, arranjados à má fila, comprados e subornados, e ao mais alto nível… com o apoio inestimável da espionagem mais sofisticada… Esse mundo sem alma que leva multidões ao desespero. Areias movediças e poços bem fundos, são o seu território demente. Isto existe. Num mundo paralelo de que só temos consciência ao ver algumas notícias. Geralmente em sorrisos rasgados, com as cotações do crude, esse mercado entre outros e a esses outros ligado de forma perversa.

Este filme é quase um documentário. Como muitos outros filmes recentes. Linguagem que lhe dá uma força, uma verosimilhança enorme. Sobretudo quando filma os imigrantes, a arbitrariedade com que são admitidos ou dispensados, segundo os interesses obscuros de grandes empresas que se fundem. O tratamento das autoridades, as que lhes dão um visto,desumano e violento. A forma precária como vivem, em tendas, sem água canalizada, nada. A atracção pelo abismo, pela morte, por uma inspiração divina, de um mundo onde se pode readquirir alguma dignidade. Um deles tinha dito enquanto passeiam pela zona deserta circundante dos campos de trabalho: Uma declaração… Se o homem foi feito à imagem de Deus, então Deus está muito baralhado… Mais tarde o jovem dirá, inquieto, antes do ataque bombista: Se realmente me faltar a fé, então não sou a pessoa certa… É que sem fé, nada daquilo terá qualquer sentido, nem o sorriso seráfico do angariador de mártires.

E tudo em linguagem directa, documental, em tempo real, que nos perturba muito mais. Identificamo-nos com as pessoas que deixam de ser personagens. São reais. Podíamos ser nós próprios! Aquele deslocado a sonhar com as suas montanhas cheias de neve… o filho prestes a ser recrutado para a morte… o espião traído e torturado ao serviço do seu país… o pai e a mãe do miúdo estupidamente morto na piscina do rei árabe… o príncipe preterido pelo irmão psicopata para governar o destino do território, do seu povo e dos negócios…

O mundo é um lugar muito pouco amável para milhões de pessoas. E pensar nisso dói. Syriana é apenas uma pequena janela. Que toca a nossa consciência. Porque estamos envolvidos enquanto consumidores, a ponta final desta enorme cadeia.

 

 

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publicado às 15:04

Filmes de aventura dos anos 40

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.03.08

 

Ray Milland, John Wayne, Paulette Godard, tão jovens! Ah, estes maravilhosos filmes de aventuras dos anos 40! No filme também consegui identificar o Robert Preston, igualmente tão jovem, mas só pela voz, a sua voz inconfundível. Sinto-me grata às legendas no cinema, em vez das dobragens, que me permitiram ouvir as vozes dos meus actores bem-amados, desde criança. Se tivesse nascido em Espanha…

Neste filme há piratas, barcos elegantes, de madeira lustrosa, velas ao vento… e heróis que se afirmam não pela força bruta mas pela inteligência. Com saídas humorísticas mesmo nos momentos mais perigosos.

Estes heróis, altos e atléticos, são sempre cavalheiros, prestáveis, protectores. Bem, aqui Ray Milland chega a meter a Paulette Godard na ordem. Mas respeita-a no essencial, na sua liberdade. Ama-a mesmo que ela escolha o John Wayne. E nunca desiste. Boicota-lhe o casamento, a fuga com esse aventureiro. Mas terá de ser ela a ver, por si própria, quem é cada um dos actores. Ela vê a verdade quase no final. Confiara no homem errado. No cobarde, no vilão.

(É fascinante observar o design dos cenários e o guarda-roupa, próprios da época. Acho fantástica essa interferência da moda da época para um período histórico muito anterior. Um dos meus passatempos preferidos é mesmo tentar identificar a época da realização de cada filme pelo guarda-roupa e pelos cenários. Afinal, não pretendiam ser filmes históricos, mas de entretenimento.)

Esta aventura inclui um polvo gigante com quem estes dois homens, vestidos com um escanfandro, irão lutar no fundo do mar, entre os destroços do barco afundado. Só um virá à superfície.

E o filme termina como é esperado, como terminam sempre as aventuras, com o herói e a sua amada. Ray Milland e Paulette Godard fazem, neste filme, um par tão bonito e engraçado!

 

 

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publicado às 15:25

Começar de um outro ponto de partida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.03.08

 

Em The Naked Spur o nosso herói terá uma segunda oportunidade, mas será mesmo por um triz que a descobre.

A sua vida fora destruída por uma traição. Perdera tudo e é esse tudo que ele quer recuperar. Ainda que à custa do prémio pela captura de um assassino procurado.

É absolutamente comovente a forma como surge esse outro amor improvável, a forma como se protegem mutuamente, como se apoiam no final. Nessa paisagem agreste, no meio de homens desconfiados e prontos a trair e a roubar.

Depois de todas as peripécias, quando tudo parece ganho, essa troca do bandido pelo rancho, uma troca justa, descobre que esse tudo era outra coisa. Resolve dar um final digno à história e começar de um outro ponto de partida.

 

 

Muitos dias depois... descobri num outro lugar...

 

 

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publicado às 14:55


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